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Desvios do descarte

O trabalho consiste na narração visual em torno do tema descarte e desvio, por meio do acompanhamento das atividades do livreiro de rua Odilon Tavares e da proposta de levar até seu sebo de rua livros produzidos pelo Serviço Gráfico da Escola de Arquitetura da UFMG na década de 1960, que são periodicamente descartados pela Biblioteca Rafaelo Berti.

Odilon Tavares comercializa seus livros encontrados no lixo a preços fixos de 5 reais. Ele monta diariamente seu sebo na esquina da rua Grão Mogol com a avenida Contorno, em Belo Horizonte, na região Centro-Sul da cidade, marcadamente de classe média e média-alta. Além dos livros que ele expõe e armazena na calçada da rua, Odilon possui ainda inúmeras estantes de livro em sua casa: até hoje nunca contabilizou seu acervo.

Na sala de fundo da Biblioteca Rafaelo Berti, na Escola de Arquitetura da UFMG, algumas estantes metálicas reúnem dezenas, senão centenas, de exemplares produzidos pelo Serviço Gráfico da Escola nas décadas de 1960 e 1970. Entre eles há repetidas edições do Volume V e do Volume VI da ambiciosa “História da Arquitetura” escrita por João Boltshauser, na década de 1960; há também exemplares repetidos de seus três volumes de Noções de Evolução Urbana das Américas; de “Escultura ornamental barroca do Brasil”, de Carlos del Negro; da apostila de Fluidotécnica, de Carvalho Lopes; entre outros. Periodicamente, as bibliotecárias depositam exemplares desse estoque na prateleira de descarte para os possíveis interessados.  

Nas minhas conversas com Odilon, fotografei-o com câmeras do Laboratório da Escola de Arquitetura e também utilizei a estrutura do Laboratório para revelar e ampliar essas fotografias. Inseri-as nos livros descartados pela Biblioteca. Levar esses livros a Odilon foi o desvio desse trabalho.

Belo Horizonte, 2019