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O popular em disputa: em torno de Lina Bo Bardi e Celso Furtado (1959-1964)

A partir de um conjunto de documentos, entre rascunhos, correspondências e recortes de jornal, envolvendo principalmente Lina Bo Bardi e Celso Furtado, propomos discutir o popular enquanto campo de debates e de disputas políticas, no contexto brasileiro de 1960, mais especificamente na cidade da Bahia daquele período histórico. Argumentamos que, ao complexificar a dicotomia entre civilização universal e cultura local, no termos de Paul Ricoeur (2007 [1955]), essa malha de documentos que selecionamos de diferentes arquivos mostra que enfrentamentos teóricos concernentes às abordagens de arte e artesanato evidenciam a natureza dialética da relação moderno e popular, atravessando as noções de design, folclore, kitsch, técnica, industrialização e formas de organização social. Tomamos como ponto de partida uma troca de correspondências entre a arquiteta idealizadora do Museu de Arte Popular, inaugurado em 1963 no Solar do Unhão, em Salvador, Lina Bo Bardi, e o economista idealizador da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, a SUDENE, criada em 1959, Celso Furtado. O foco do embate é a crítica de Furtado à valorização do artesanato enquanto manutenção do status-quo da pobreza, o que estaria implicado no trabalho que Lina Bo Bardi vinha desenvolvendo no Nordeste brasileiro, dos quais são exemplos a exposição “Bahia no Ibirapuera”, em 1959, e “Civilização Nordeste”, 1963. Em sua defesa, a arquiteta argumenta que lhe interessa a conservação da estrutura profunda das possibilidades populares, e não suas formas e materiais, lançando luzes sobre uma abordagem da arte popular como processo, e não como produto. Nesse sentido, argumentamos que, ao exibir os produtos resultantes de um determinado modo de organização social que estava para ser alterado pelo processo de industrialização, as exposições organizadas por Lina Bo Bardi, sobretudo “Bahia” (1959), no Ibirapuera, e “Civilização Nordeste” (1963), no Solar do Unhão, focavam numa poética do popular cuja condição de emergência estava relacionada ao entendimento desses mesmos objetos enquanto cacos, fiapos, restos, ruínas de um outro tempo.

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autoria: MORTIMER, Junia Cambraia; LAGO, Elisa Vieira; SOUZA, Leonardo Vieira de

2018